Saturday, October 5, 2013

Populações tradicionais e Unidades de Conservação

Atividade 2.3 – Tendências Pedagógicas na Educação Ambiental
Populações tradicionais e Unidades de Conservação
                                                                                                                                 Nathalie Wutzki
O Brasil é considerado um país megabiodiverso, o grande território com seus diversos biomas contribuem para que seja o país com maior biodiversidade do planeta, onde mais de 20% do número total de espécies da Terra vivem.  A biodiversidade brasileira não está apenas no número de espécies, mas também podemos falar sobre a grande sociobiodiversidade, as diferentes populações tradicionais (quilombolas, extrativistas, pescadores, agricultores familiares, entre outras), que ao longo de séculos desenvolveram diferentes formas de se relacionar com a natureza.
Existe um grande debate em torna da questão da conservação da biodiversidade e as populações tradicionais que vivem nas Unidades de Conservação. Podemos perceber duas visões diferentes em torno da questão, a primeira considera que essas áreas, por terem uma grande importância devido as espécies raras que ali existem deveriam ser mantidas protegidas da ação humana, que, segundo essa visão sempre possui caráter destrutivo. Para sustentar essa tese os pesquisadores buscam evidências de que as populações tradicionais ao longo da história sempre depredaram a natureza. A segunda visão considera a presença ao longo de centenas de anos dessas populações nesses locais e defende que essas populações protegem a biodiversidade, segundo Arruda “Trata-se de valorizar a identidade, os conhecimentos, as práticas e os direitos de cidadania destas populações, valorizando seu padrão de uso dos recursos naturais”. Segundo essa visão a preservação dessas áreas é compatível com a permanência dessas comunidades e, ao analisar o fato da grande porcentagem de populações presentes nas UC’s, considera que a melhor forma de trabalhar seja incluir essas populações no manejo sustentável da área a partir da gestão compartilhada e de soluções criadas com a participação dessas populações.
Por trás dessas visões encontramos duas concepções diferentes sobre a natureza. A primeira apresenta uma visão naturalista “essa visão “naturalizada” tende a ver a natureza como o mundo da ordem biológica, essencialmente boa, pacificada, equilibrada, estável em suas interações ecossistêmicas, o qual segue vivendo como autônomo e independente da interação com o mundo natural humano. Quando essa interação é focada, a presença humana amiúde aparece como problemática e nefasta para natureza” (Carvalho, 2011). Portanto a melhor forma de conservar a biodiversidade é mantê-la a salvo da ação humana, em uma espécie de aquário/zoológico com acesso restrito apenas para a contemplação e pesquisa. Essa visão é presente na sociedade e já pode ser vista enraizada na concepção das crianças em diversos momentos na sala de aula. Como exemplo posso citar uma aula sobre a extinção das espécies na 6ª série em que uma sugestão foi colocar todas as espécies dentro de uma ilha, ou colocar uma redoma de vidro entorno da Amazônia. As Unidades de Conservação segundo essa proposta alimentam essa visão insustentável da relação homem/natureza. Já a segunda visão considera que “a natureza e os humanos, bem como a sociedade e o ambiente, estabelecem uma relação de mútua interação e copertença, formando um único mundo” (Carvalho 2011). Portanto a construção de planos de manejo com as populações locais, valorizando seus conhecimentos e práticas diante da necessidade da preservação da biodiversidade são uma oportunidade de valorizar outras formas de se relacionar com a natureza e construção de “bons exemplos”. Quem sabe, mais precioso do que a preservação de algumas espécies, seja conciliar isso com a necessidade para essa e as próximas gerações de exemplos positivos que nos ajudem na desconstrução da visão do homem como “câncer” do planeta e na reflexão sobre o seu papel na natureza.

Carvalho, Isabel Cristina de Moura. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico – 5ed. – São Paulo: Cortez, 2011.


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