Atividade 2.3 – Tendências Pedagógicas na Educação Ambiental
Populações
tradicionais e Unidades de Conservação
Nathalie Wutzki
O Brasil é considerado um país
megabiodiverso, o grande território com seus diversos biomas contribuem para
que seja o país com maior biodiversidade do planeta, onde mais de 20% do número
total de espécies da Terra vivem. A
biodiversidade brasileira não está apenas no número de espécies, mas também
podemos falar sobre a grande sociobiodiversidade, as diferentes populações
tradicionais (quilombolas, extrativistas, pescadores, agricultores familiares,
entre outras), que ao longo de séculos desenvolveram diferentes formas de se
relacionar com a natureza.
Existe um grande debate em torna da
questão da conservação da biodiversidade e as populações tradicionais que vivem
nas Unidades de Conservação. Podemos perceber duas visões diferentes em torno
da questão, a primeira considera que essas áreas, por terem uma grande
importância devido as espécies raras que ali existem deveriam ser mantidas protegidas
da ação humana, que, segundo essa visão sempre possui caráter destrutivo. Para sustentar
essa tese os pesquisadores buscam evidências de que as populações tradicionais
ao longo da história sempre depredaram a natureza. A segunda visão considera a
presença ao longo de centenas de anos dessas populações nesses locais e defende
que essas populações protegem a biodiversidade, segundo Arruda “Trata-se de
valorizar a identidade, os conhecimentos, as práticas e os direitos de
cidadania destas populações, valorizando seu padrão de uso dos recursos
naturais”. Segundo essa visão a preservação dessas áreas é compatível com a permanência
dessas comunidades e, ao analisar o fato da grande porcentagem de populações
presentes nas UC’s, considera que a melhor forma de trabalhar seja incluir
essas populações no manejo sustentável da área a partir da gestão compartilhada
e de soluções criadas com a participação dessas populações.
Por trás dessas visões
encontramos duas concepções diferentes sobre a natureza. A primeira apresenta
uma visão naturalista “essa visão “naturalizada” tende a ver a natureza como o
mundo da ordem biológica, essencialmente boa, pacificada, equilibrada, estável
em suas interações ecossistêmicas, o qual segue vivendo como autônomo e
independente da interação com o mundo natural humano. Quando essa interação é
focada, a presença humana amiúde aparece como problemática e nefasta para
natureza” (Carvalho, 2011). Portanto a melhor forma de conservar a
biodiversidade é mantê-la a salvo da ação humana, em uma espécie de
aquário/zoológico com acesso restrito apenas para a contemplação e pesquisa. Essa
visão é presente na sociedade e já pode ser vista enraizada na concepção das
crianças em diversos momentos na sala de aula. Como exemplo posso citar uma
aula sobre a extinção das espécies na 6ª série em que uma sugestão foi colocar
todas as espécies dentro de uma ilha, ou colocar uma redoma de vidro entorno da
Amazônia. As Unidades de Conservação segundo essa proposta alimentam essa visão
insustentável da relação homem/natureza. Já a segunda visão considera que “a
natureza e os humanos, bem como a sociedade e o ambiente, estabelecem uma
relação de mútua interação e copertença, formando um único mundo” (Carvalho
2011). Portanto a construção de planos de manejo com as populações locais,
valorizando seus conhecimentos e práticas diante da necessidade da preservação
da biodiversidade são uma oportunidade de valorizar outras formas de se
relacionar com a natureza e construção de “bons exemplos”. Quem sabe, mais
precioso do que a preservação de algumas espécies, seja conciliar isso com a
necessidade para essa e as próximas gerações de exemplos positivos que nos
ajudem na desconstrução da visão do homem como “câncer” do planeta e na
reflexão sobre o seu papel na natureza.
Carvalho, Isabel Cristina de Moura.
Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico – 5ed. – São Paulo: Cortez,
2011.
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